Medo de magoar o outro: silêncio, relações e Winnicott

Por que algumas pessoas preferem se calar para não magoar quem amam? Sentem medo de magoar. Uma reflexão a partir da psicanálise de Winnicott sobre silêncio, cuidado, adaptação e relações.

BLOG SAÚDE MENTAL

Andréa Oliveira

10/8/2026

“Prefiro me calar a magoá-lo”: o que esse silêncio pode revelar?

Há pessoas que pensam muitas vezes antes de dizer aquilo que sentem.

Não necessariamente porque não saibam o que querem dizer. Às vezes, a dificuldade aparece quando imaginam o efeito que suas palavras poderão causar no outro.

“E se ele ficar magoado?”

“E se ela se decepcionar comigo?”

“E se a pessoa se afastar?”

“Talvez seja melhor não falar.”

Em alguns momentos, escolher o silêncio pode ser um gesto de cuidado. Viver com outras pessoas também significa considerar sentimentos, momentos e limites que não são apenas nossos.

Mas há situações em que esse cuidado começa a ocupar tanto espaço que a própria pessoa já não consegue reconhecer com clareza o que sente, o que deseja ou do que precisa.

É justamente aí que uma pergunta importante aparece:

quando eu me calo para não magoar o outro, estou escolhendo não falar ou sinto que não posso falar?

Nem todo silêncio significa a mesma coisa

  • Por fora, duas pessoas podem fazer exatamente a mesma coisa: permanecer caladas diante de uma situação difícil.

  • Por dentro, porém, podem estar vivendo experiências completamente diferentes.

  • Uma pessoa pode decidir não falar naquele momento porque percebe que está irritada e prefere esperar.

  • Outra pode ter medo de provocar uma discussão.

  • Outra pode imaginar que uma discordância será suficiente para fazer alguém se afastar.

  • E há também situações em que o medo da reação do outro é bastante concreto, especialmente quando existem intimidação, controle ou ameaças.

  • Por isso, o silêncio não deve ser interpretado de forma automática.

  • Antes de perguntar “por que você não se posiciona?”, pode ser necessário compreender o que essa pessoa imagina que acontecerá se ela falar.

Quando desagradar parece perigoso

  • Algumas pessoas conseguem discordar e continuar se sentindo seguras dentro da relação.

  • Elas podem perceber que o outro ficou frustrado ou decepcionado e, ainda assim, continuar reconhecendo aquilo que desejam.

  • Para outras, o simples sinal de desagrado do outro pode produzir uma inquietação muito intensa.

  • Um silêncio, uma mudança de expressão ou uma resposta mais curta podem levar a pessoa a pensar imediatamente:

  • “Fiz alguma coisa errada.”

  • “Preciso consertar isso.”

  • “Ele está chateado comigo.”

  • “É melhor mudar de assunto.”

  • Aos poucos, ela pode começar a acompanhar tanto o estado emocional do outro que perde contato com a própria experiência.

  • Nem sempre isso acontece conscientemente.

  • Às vezes, tornou-se uma maneira muito antiga e familiar de estar nas relações.

Cuidar do outro não é o mesmo que desaparecer

A psicanálise de Donald Winnicott nos oferece uma contribuição interessante para pensar essa diferença.

Ao longo do amadurecimento emocional, desenvolvemos a possibilidade de perceber que nossas ações afetam outras pessoas.

Ser capaz de se preocupar com alguém, reconhecer que podemos magoar e desejar reparar uma situação quando necessário faz parte da vida emocional.

Portanto, preocupar-se com o outro não é um problema em si.

A questão começa a ficar diferente quando a pessoa só consegue preservar uma relação deixando continuamente a si mesma em segundo plano.

Ela concorda antes mesmo de saber se concorda.

Diz que está tudo bem antes de descobrir se realmente está.

Aceita antes de conseguir perceber se gostaria de recusar.

Nesse ponto, a adaptação ao outro pode começar a tomar o lugar da espontaneidade.

Winnicott e a possibilidade de ser si mesmo

Winnicott utilizou a ideia de falso self para compreender determinadas formas de adaptação excessiva ao ambiente.

Isso não significa que toda pessoa gentil, educada ou preocupada com os outros tenha um falso self.

Todos precisamos nos adaptar em alguma medida para viver em sociedade e construir relações.

A questão clínica é outra.

Em alguns casos, a pessoa pode se tornar tão acostumada a descobrir aquilo que esperam dela que começa a ter dificuldade para reconhecer o que parte dela própria.

Em vez de perguntar:

“O que eu sinto?”

ela pergunta:

“O que esperam que eu sinta?”

Em vez de:

“O que eu quero?”

surge primeiro:

“O que fará o outro ficar bem?”

A psicoterapia pode oferecer um espaço para que essas diferenças comecem a ser percebidas sem a obrigação de encontrar respostas imediatamente.

E quando a pessoa não sabe o que quer?

  • Essa é uma experiência mais comum do que parece.

  • Às vezes alguém chega à terapia dizendo:

  • “Não sei.”

  • “Para mim tanto faz.”

  • “Você que sabe.”

  • “Não quero magoar ninguém.”

  • Nem sempre existe uma resposta escondida esperando para ser descoberta rapidamente.

  • Pode ser necessário algum tempo para perceber sensações, pensamentos, incômodos e desejos que costumavam ser interrompidos antes mesmo de ganhar forma.

  • Por isso, o silêncio também pode ter lugar na psicoterapia.

  • Nem todo silêncio precisa ser preenchido por uma pergunta ou uma interpretação.

  • Há momentos em que permanecer diante de uma experiência ainda sem palavras pode fazer parte do próprio processo.

O medo de magoar também pode aparecer na terapia

  • Algo particularmente interessante acontece quando essa dificuldade começa a aparecer na própria relação terapêutica.

  • A pessoa pode ficar preocupada em responder “corretamente”.

  • Pode concordar com uma interpretação para não decepcionar o terapeuta.

  • Pode imaginar que precisa apresentar progresso.

  • Pode evitar dizer que alguma pergunta incomodou.

  • Nesse momento, o modo como essa experiência aparece na relação terapêutica pode se tornar uma oportunidade importante de compreensão.

  • Ser capaz de dizer:

  • “Não concordei com o que você falou.”

  • “Essa pergunta me incomodou.”

  • “Hoje eu não quero falar sobre isso.”

  • pode representar muito mais do que simplesmente aprender a dizer “não”.

  • Pode significar experimentar uma relação em que existe espaço para diferença sem que o vínculo precise desaparecer.

Antes de falar, pode ser necessário conseguir se escutar

Muitas vezes, conselhos como “você precisa se impor”, “aprenda a dizer não” ou “coloque limites” parecem simples quando vistos de fora.

Mas eles podem ignorar justamente aquilo que torna a situação difícil.

Talvez a pessoa ainda esteja tentando descobrir o que sente.

Talvez tema perder uma relação importante.

Talvez esteja diante de uma situação concreta de controle ou ameaça.

Talvez tenha passado grande parte da vida aprendendo a observar as necessidades dos outros antes das próprias.

Por isso, antes de ensinar alguém a falar, pode ser necessário ajudá-la a encontrar condições para escutar a própria experiência.

E isso não acontece necessariamente de uma vez.

  • Pode começar por algo pequeno:

  • perceber um incômodo.

  • Reconhecer um cansaço.

  • Descobrir uma vontade.

  • Conseguir dizer “não sei”.

Ou perceber que determinada escolha foi feita mais para evitar a reação de alguém do que porque realmente fazia sentido para si.

Ao vivo - HOJE:

“Prefiro me calar a magoá-lo”

Hoje vou aprofundar esse tema em uma conversa sobre clínica e psicanálise winnicottiana.

  • Vamos pensar juntos sobre algumas questões:

  • Quando o silêncio é cuidado e quando se torna adaptação?

  • Como diferenciar preocupação genuína, medo de abandono e medo de uma reação concreta?

  • O que Winnicott pode nos ajudar a compreender sobre espontaneidade, falso self e amadurecimento emocional?

  • E, para profissionais e estudantes de psicologia, uma questão especialmente importante: o que precisamos escutar antes de convidar uma pessoa a falar?

  • A proposta não é encontrar uma frase pronta ou uma interpretação que sirva para todos.

É pensar sobre a complexidade que pode existir por trás de uma frase aparentemente simples:

“Prefiro me calar a magoá-lo.”

Se esse tema conversa com algo que você vive ou observa em suas relações, talvez ele também possa abrir novas perguntas sobre o modo como você cuida do outro e sobre o espaço que consegue reservar para si.

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